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7 – O moinho de água

by em 13/08/2009

A tarde estava quente, a brisa quase nem se sentia, e a que se sentia, era tudo menos fresca. Os campos de milho dançavam entre rectas e curvas, era uma estrada que separava bosques – um de cereais, outro de árvores, fungos e pequenos riachos. O jipe, por fim, apareceu na berma da estrada.

“Que estranho, não me lembro de o ter tão longe” – exclamou Tom enquanto fazia festas a Black, que se enfadava de ali estar.

O mecânico, Kevin Waterloop com 61 anos, dos quais apenas 10 não tinham sido passados a mexer e remexer em tudo o que tenha 2 ou 4 rodas.

“Não morro sem antes construir um carro da primeira chapa à última borracha” – disse ele com ar sonhador minutos antes.

“Ora vamos lá ver o que se passa” disse enquando abria o capot, olhou por cima, olhou por baixo, e disse “Tente lá liga-lo, para ver qual é o problema”.  Tom, de pronto se sentou no jipe e rodou a chave na ignição. Ao mesmo tempo que o motor obedecia à ignição à primeira, Tom reparou numa estátua que nunca antes tinha visto, e agora se banhava em sol no banco do passageiro.
“Então, nada me parece mal. Está a trabalhar lindamente” disse Kevin alto enquanto coçava o queixo.

“Kevin, venha cá, não estou a perceber, repare neste moinho. Eu deixei o jipe fechado, este moinho não é meu, como veio aqui parar?

“Oh diacho, o moinho de água, não me acredito. De certeza que não é seu Tom?”. Tom olhou de espanto para Kevin, e atónitos ficaram assim, enquanto se ouvia uma música que entretanto começou a tocar no rádio «ainda é cedo amor, mal começastes a conhecer a vida, já anuncias a hora de partida, sem saber mesmo o rumo que irás tomar…»

“Eu nunca vi esta estátua na minha vida Kevin, não percebo nada.”

“E o resto? Há mais alguma coisa de anormal?” questionou Kevin com ar calmo e intrigado.

“Tirando o facto de o carro ter arrancado como se nada tivesse, nada. Deixe ver. Espere aí.” – Vasculhou todos os cantos do jipe, a ver se faltava alguma coisa – “..só faltava nascer água da porta,  já agora..” murmurou de espanto. Kevin gargalhou e disse:

“Não, isso não há-de acontecer. Sabe, na vila correm algumas histórias, e alguma delas referem o moinho de água. No entanto, nenhuma refere água a nascer das portas.”

“E moinhos no banco do passageiro?” – disse Tom observando Black a correr pelo campo ao lado, já mais alegre.

“Só com cinto meu amigo, o seu é inédito” – gracejou – “Mesmo assim, eu levo o jipe para o meu barraco, e dou uns olhos mais de ver pelo motor. Esteja descansado, jipes assim já andaram na guerra, é deixar arrefecer, e já pegam de novo.”

“E ganham brindes entretanto..” disse Tom enquanto Kevin prendia o gancho do reboque ao jipe – “Conte-me lá as histórias que se falam na vila! Quero saber delas todas, já que estou lá bem no meio.”

“Sabe, eu conheço muito bem as redondezas, isto é o meu mundo. Mas de tantos anos de vida que eu já rolei, nunca vi o tal moinho. Esse do seu banco meu amigo, há à venda loja sim loja sim na vila, não tem muito de mistério. No entanto, o moinho falado, esse é todo ele mistério, pedra sobre pedra. Desde jovem que ouço, nas conversas de café, o meu avô lá nos contava as histórias sempre que pedíamos, e acabava a discutir pormenores com os amigos dele lá. Não sei se era do vinho, da idade, ou de birra mesmo, acabavam sempre a discutir o local e o tamanho. Coisa de homens não acha?”

“De novelas já estou farto Kevin.. se eu lhe contasse as minhas histórias…”

“Dizia eu Tom, há muito tempo secou um pequeno riacho, o leito foi desviado para a rega dos campos, e um pequeno moinho ficou sem água para trabalhar. Era um moinho dum senhor com uma pequena cultura, ele só tinha aquilo, nada mais, e apesar de embirrar com o desvio do leito, não pôde fazer muito mais. O certo é que o leito foi desviado, e do moinho perdeu-se o caminho, o lugar, só não se perdeu a memória.. e o barulho. Há histórias de gente que ouve o trabalhar do moinho enquanto passeia no bosque, outras que desaparecem sem nunca mais voltar à vila, outras ainda aparecem a vaguear pela noite..” – dizia Kevin pensativamente – “São histórias, nunca vi nada.”

“Ainda ontem à noite vi qualquer coisa na rua” – disse Tom já com esperança de descobrir qualquer coisa mais.

“Não vi nada. E eu dou sempre o meu passeio digestivo, e ainda por cima está tão bom tempo agora.”

“Bom tempo? Estava gelada a noite, e cheia de nevoeiro, não se via 20 metros à frente.”

“Só se fosse na sua rua, na minha estava bem diferente Tom” – disse Kevin e ambos ficaram então a pensar no que tinham falado e a ouvir o rádio o resto da viagem.

“Chegamos. Então eu levo o jipe para o barraco. Bom jantar Tom, com a minha sobrinha eu sei que vai ter. Fique longe de problemas meu amigo. Amanhã de tarde passe lá pelo meu cantinho. Até amanhã meu amigo.”

“Até amanhã Kevin, obrigado por tudo. Anda Black”
“Ah, leve o moinho consigo” – disse Kevin enquanto tirava o pequeno moinho do banco e o estendia para Tom – “Este aqui não faz parte do mistério”

>>Parte 8 – O Ferido

De → Partes

3 Comentários
  1. acerca da música, a qual usei para a escrita do texto…

    Ainda é cedo amor
    Mal começaste a conhecer a vida
    Já anuncias a hora da partida
    Sem saber mesmo o rumo que irás tomar

    Preste atenção querida
    Embora saiba que estás resolvida
    Em cada esquina cai um pouco a tua vida
    Em pouco tempo não serás mais o que és

    Ouça-me bem amor
    Preste atenção, o mundo é um moinho
    Vai triturar teus sonhos tão mesquinhos
    Vai reduzir as ilusões à pó.

    Preste atenção querida
    De cada amor tu herdarás só o cinismo
    Quando notares estás a beira do abismo
    Abismo que cavaste com teus pés

    vídeo aqui: http://www.youtube.com/watch?v=L8U1Y9PBfig

  2. txeiii joel :D

    tas la :P

    loool k imaginação lool :D

    vamos ver como vao pegar na tua parte :D

    kerias comentario ja ca ta :D

    o meu n comentast tu, mas sou generosa :P

    ja agora bem – vindo à equipa ;)

  3. a açao vai começar……….
    imaginaçao fertil toca a sair ca para fora..
    lol

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