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19 – Uma estranha colecção.

by em 14/11/2009

«Avô, aqui aquiiiiiiiii, olha o que eu consegui, ninguém me apanhou!!!»

“Uma das minhas mais precisas recordações do meu avô, era das festas da aldeia, quando nós jogávamos às escondidas. Eu ia sempre matreira, mais fina que todos os outros, traquina… muito bem escondida dos outros rapazes, ia pelo meio das casas, as vezes até cruzava salas e cozinhas… bons velhos tempos. A lata que uma traquina de meio palmo consegue ter, não achas Black? Tu percebes-me, eu sei que percebes. Percebes bem melhor que qualquer pessoa nesta vila não é? O meu avô chamava-me a sua «pequena loba, atenta e matreira», «sais à família» dizia ele. Sabes Black, as vezes pergunto-me se este nome que eu tenho não será maldição, ou será que o meu avô sabia? É maldição esta família Black, Deus devia erradicar a família Wolf deste planeta, nós somos más pessoas, somos terríveis… Se eu mudar de nome, isto não vai embora pois não?”

“O meu avô, se tu o visses companheiro.. O verdadeiro charme em pessoa. Alto, costas largas, o cabelo grisalho mais galã que alguma vez vi. Nunca o vi a ser mal-educado para ninguém. Acho que o olhar bastava. Por vezes, ele mandava aqueles olhares que parecem lanças, se fosse preciso matava só com o olhar… até dá para rir. Quem me dera a mim conseguir usar só o olhar. «Minha pequena Katie, minha loba predilecta. Um dia quando fores grande, vais-me perceber melhor. Aí, nem precisas de explicações, eu vou estar a guiar-te. Um dia minha pequena, um dia vais fazer grandes coisas. Sorri, isso, sorri minha Katie, olha que linda que és minha pequena». Hoje, não tenho vontade nenhuma de sorrir Black. Isto não é uma benção, foi uma maldição, não entendo porquê. Senhor Moulin Wolf, que grande coisa é esta que me preparaste?”

“Que belo pêlo tens aqui meu amigo. Eu sinto mesmo que me percebes. Deve ser coisa de primos, ou quase-primos eheh. Eu sei que sabes meu amigo, eu sei. Mas não digas nada ao teu dono sim? Fica entre nós. Dá cá um abraço”

“Por vezes tenho sonhos, uns poucos que me deixam em paz. Sonho que estou na praia, com um horizonte de perder de vista, e um Sol que me aquece o corpo e o espírito. Dois calores que aqui não tenho. Tu percebes-me não? Por outro lado, há noites que nem prego o olho. Eu colecciono noites por dormir, entendes? Quando o meu nome me puxa para fora, não percebo. Ou são as noites que me coleccionam, das duas, uma. Não sentes o teu corpo, não falas, não ages. É como se o teu corpo estivesse ali, ao dispor de uma outra força, que não controlas, que não pede licença para entrar, nem consegues afugentar. Tu és o corpo de um corpo que nem sequer é o teu. És convidado à força para uma caminhada e não consegues impedir isso. No fundo no fundo, acho que é o meu avô que puxa este bicho que tenho dentro de mim, ele dá o click, lá do seu pequeno moinho – «minha pequena, sabes, eu tenho um esconderijo na mata, onde ninguém te encontra, aí é que ninguém te encontra eheh. Quando fores maiorzinha eu mostro-te, um dia vais conhecer o meu pequeno cantinho. Tu vens-me visitar, fica descansada sim?». Nunca chegou a mostrar-me sabes… ou eu ainda não cresci o suficiente. Nunca vi esse moinho, mas sinto que o visito nessas noites que me coleccionam. O que me sustém são esses poucos sonhos, que me deixam em paz. Ternos que são.”

«Bom dia meu pequeno petiz, que me trazes tu aí, ora diz»

“Ele adorava falar em rima, sempre arranjava alguma maneira de por açúcar nas palavras. Fazia parte do charme. E aquele sorriso, minha nossa, o sorriso mais confiante do mundo. Do meu pelo menos. De vez em quando ainda me vem à frente aquele sorriso. Arrepio-me toda sabes. Parece que, por um segundo que seja, o vejo por vezes à minha frente, tal e qual o recordo de criança. De vez em quando, nessas noites que colecciono, parece que ele está ali, comigo, ao meu lado. Tenho saudades dele. Esta maldição vem dele, tenho a certeza, mas que tenho saudades… ai, se tenho… bem, fica aí meu velho amigo, que tenho a impressão que o teu dono já anda a fazer asneiras, vou busca-lo e venho já. Tu percebes-me não?”

>>Parte 20 – Pentotal de Sódio

De → Partes

Um Comentário
  1. A partir de Lucrecia pérez “extraña colección”

    disponível para audição aqui http://www.myspace.com/thesoundoflucrecia

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